Entrevista dada ao site HQs com Café em janeiro de 2019
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Entre HQs, o futuro da Escola,
a importância da leitura, e os rumos de novas diretrizes da filosofia, e uma
pitada de vida extraterrestre e tecnologia interplanetária, o Professor,
Pesquisador, e Filósofo Edgar Smaniotto, recebeu em sua residência localizada
em Marília, interior de São Paulo, o HQ’s com Café, para uma bate papo muito
profícuo, em ressaltar a importância de um pensamento cultural que se faz
também unido com um ativismo intelectual, na busca de um futuro que ofereça
condições de enriquecimento moral e intelectual para todos, e também que o
aprender esteja pautado em um jugo de diversão e formação crítica, não estando
somente atrelado aos bancos escolares e universitário.
Edgar Smaniotto também é
membro do Conselho Municipal de Educação e do Conselho Municipal de Cultura do
município de Marília, onde atua em defesa da educação de qualidade e da cultura
brasileira.
De Zé do Caixão a Karl Marx, e
da Terra á Lua no melhor estilo Júlio Verne, o nobre pensador da cultura
transumanista e apreciador da pantropia, discorreu em relação ao futuro do
homem como o conhecemos, e a oportunidade
que temos em unir tecnologia de ponta com intelectualidade atuante, visando a
integração de povos, em busca de uma ética de convivência visando o bem comum
de todos.
Sem mais delongas deixamos o
leitor com a viagem intelectual que Edgar nos proporcionou:
1 – Na sua opinião, como está
sendo concebida e tratada a cultura das HQs hoje no Brasil?
A produção de histórias em
quadrinhos cresceu muito no Brasil, principalmente em diversidade, mesmo que o
número de leitores não seja o mesmo dos anos oitenta e noventa do século XX,
naquela época algumas HQs vendiam mais de cem mil cópias. Hoje os números não
são mais tão expressivos, mas existe uma gama maior de títulos disponíveis,
temos muitas HQs traduzidas, com certeza, o mercado mudou muito. Atualmente
parte considerável das publicações em banca são mangas, os super-heróis, tanto
DC quanto Marvel continuam presentes, com diversas publicações; os títulos
Disney foram descontinuados pela Editora Abril, mas vão retornar agora em março
pela Culturama.
Os Fumetti italianos continuam
em bancas, graças ao Tex, mas também temos Zagor, J. Kendall: Aventuras de uma
Criminóloga, Dylan Dog e Martin Mystery (todos pela Mythos) e agora a editora
85, que com financiamento coletivo está novamente disponibilizando no
Brasil Dampyr, Mister No e Diabolik. Os
títulos da Turma da Mônica continuam fortes, e tudo indica com boas vendas. Os
estúdios Maurício de Souza inovaram com Turma da Mônica jovem e com os
encadernados em que vários diferentes roteiristas e artistas trabalham com os
personagens da editora. Títulos como Astronauta, Piteco, Turma da Mata, Chico
Bento, Capitão Feio realmente são muito bons. Espero que o Estúdio venha a
investir no mesmo modelo em outros quadrinhos, que não apenas os personagens do
Maurício de Souza. Também temos os financiamentos coletivos, que tem
viabilizado muito a produção nacional, com uma qualidade que antes era
impossível. Ainda temos fanzines e HQS divulgadas e publicadas em sites, blogs
e redes sociais. Eu, por exemplo, acompanho as tirinhas do Edibar, da Silva do
Lucio Oliveira pelo Facebook. Podcasts e canais do youtube estão fazendo um bom
trabalho de divulgação. Temos também um quadro crescente de pesquisas
acadêmicas, e inclusive a Associação de Pesquisadores em Arte Sequencial
(ASPAS), da qual faço parte.
2 – Como pensa a respeito da
“arte” como um símbolo de humanismo ou anarquismo em relação a atual conjectura
política do Brasil?
A arte incomoda,
principalmente aqueles que temem a inovação, a liberdade de pensamento e de
crítica. Nesse quesito devemos ser intransigentes defensores da liberdade
artística, este é um tópico que sempre me pauto pelas reflexões de Voltaire:
“Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei
até a morte o direito de você dizê-las.”
3 – Informação ou
conhecimento? Qual seria o melhor caminho para a formação de uma cultura pop,
com características lúdicas?
Informação é bem-vinda, com
certeza, mas diante do volume gigantesco de informações disponíveis atualmente
via internet, o conhecimento aprofundado é cada vez mais necessário. Vejo
muitas vezes pessoas desvalorizando o conhecimento escolar, mas ele é cada vez
mais importante para estabelecermos uma base sólida de conhecimentos, ou
podemos nos perder no volume de informações, muitas vezes falsas, presente na
internet. Veja o caso de pessoas que aderem a hipóteses esdrúxulas como a Terra
Plana ou que O Homem não foi a Lua; ou mesmo a ideias perigosas, tanto pessoal
como socialmente, como os grupos anti-vacinas; e é lógico também temos aqueles
que não entendem a teoria da evolução, por não entenderem nem o que é uma
teoria. Isso não é algo novo, sempre esteve aí, apenas a internet da mais
visibilidade a estes grupos, e uma plateia. Não é apenas falta de conhecimento,
é até pior, é não compreender algo, e por isso acreditar em uma informação
errônea, e então divulgar isso na internet como verdade.
A cultura pop é por natureza
lúdica, ninguém lê X-men, Tex, Batman, apenas por interesse acadêmico, e quando
fazemos isso é por que já tínhamos uma leitura lúdica anteriormente. Mas veja,
não dá para ler X-Men e não identificar ali as lutas de minorias como os
negros, mulheres e LGBTs; assim como não dá para ler Tex, Zagor, Mister No ou
Mágico Vento e ser contrário aos direitos dos povos indígenas; ser um leitor de
Batman e favorável a pena de morte. Ler as HQs ou assistir os filmes de Star
Was e ser a favor de governos autocráticos, quando este tipo de incoerência
ocorre, e que aquele leitor apenas absolve uma informação, um lazer momentâneo,
mas não teve um pensamento crítico desenvolvido, o que é o papel central da
escola em nossa sociedade. Está pessoa não adquiriu conhecimento nenhum, então
ela lê V de Vingança ou O Cavaleiro das Trevas e não consegue absolver dali os
perigos do fascismo, stalinismo, nazismo e autocracias em geral. Se duvidar
termina a leitura de V e vai para o Facebook compartilhar “memes” a favor
políticas autocráticas e censura a arte. Falta informação? Não! Falta
conhecimento. E este para ocorrer deve ser socialmente e historicamente
construído, crítico e em constante conversação. Por isso devemos preservar a
escola de qualquer censura e a autonomia dos docentes.
4 – O transumanismo seria uma realidade ou
está somente ao mundo das ideias?
Primeiro precisamos pensar no
que é o transumanismo, ou seja transcender o homem atual. O homo sapiens é o
resultado de um longo processo de evolução, que durou pelo menos 5 milhões de
anos, e já chegamos a compartilhar este planeta com outras espécies humanas
como os hominídeos de Denisova e os neandertais (inclusive há genes destes em
nossa estrutura genética). Mas nossa evolução, ao contrário do que muitas vezes
o senso comum pensa (talvez resultado daquele esquema de evolução linear que
começa com um primata parecido com um macaco e segue até o homo sapiens) não
terminou. Continuamos a interagir com o meio ambiente a nossa volta, e algumas
mudanças acabam sendo positivas, o que gera uma seleção destas, em decorrência
de outras, a chamada seleção natural. Nos últimos 30 mil anos pelo menos 22
genes ligados à digestão e ao metabolismo sofreram mudanças, uma adaptação ao
consumo de leite e bebidas alcoólicas. A cor da pele também é uma adaptação ao
período de migrações do Sapiens, que se espalharam por todo o planeta. Também
foram mapeados mudanças em genes da mastigação (introdução do cozimento) e da
aprendizagem (uso da linguagem e da escrita). Ou seja, ainda estamos em
evolução. O que os transumanistas defendem é que este processo lento de
adaptação, não mais é compatível com as mudanças ambientais causadas em nossa
sociedade industrial moderna. Assim precisaríamos dar uma mão à mãe natureza,
provocando mudanças biogenéticas que nos possibilitem uma melhor adaptação ao
mundo que nós mesmos criamos. Algumas destas mudanças seriam terapêuticas, como
por exemplo, adaptar nossos genes a nossa alimentação e esforço físicos
modernos, visto que a obesidade é em grande parte resultado de uma adaptação
bem sucedida em uma época em que a comida era escassa e assim acumular gordura
corporal era uma vantagem, mas hoje, com mercados na porta de casa e fast-food
esta adaptação bem sucedida se tornou um incomodo prejudicial à saúde e até
mortal para alguns. A cura do câncer poderia vir daí, bem como da diabetes e
etc. No final de 2018 vimos o caso do cientista chinês, que conseguiu criar os
primeiros bebês humanos geneticamente modificados para resistir ao HIV. Ainda
não temos dados para avaliar as consequências deste experimento, mas poderia
estar aí uma solução para diversas doenças. Com o tempo poderíamos adaptar
nosso corpo a ambientes não-terrestres, talvez colonizar as luas de Saturno e
Júpiter, ou Marte. Assim dando uma mãozinha para a mãe natureza.
5 – Qual seria o papel da Universidade na
formação de pensamento dialético hoje? Ainda há espaço para grupos criativos”
segundo as palavras de Domenico de Masi?
A Universidade é indispensável
para a formação, principalmente o espaço em sala de aula e os grupos de
estudos, espaços de debates e discussões que não podem ser substituídos pela
tecnologia. Veja como as pessoas tem cada vez mais dificuldade em conversar,
trocar pontos de vista, como ocorre na política. Acostumamos a ver apenas
aquilo que reproduz nossa imagem do mundo, nossos “amigos” no facebook são os
que concordam com a gente, em geral as pessoas seguem um canal de YouTube ou
formador de opinião que balize suas ideias. Vejo este fato uma das causas da
diminuição de leitores de jornais e revistas, ninguém quer ler uma publicação
em que um articulista pode contrariar suas ideias, ela quer seguir apenas
alguém que aprove tudo o que ela pensa. É como se a pessoa quisesse escutar
apenas ela mesma, ou um reflexo dela. O espaço para criação e inovação nunca
esteve disponível, ele é uma luta constante dos democratas, precisamos sempre
buscar, principalmente na universidade, construir ambientes criativos e inovadores.
Nós professores sabemos o quanto a própria sala de aula pode se tornar um grupo
criativo. Ivan Illich no seu clássico “Sociedade sem Escolas” procurava
justamente defender a ideia de grupos criativos como lugares de formação, em
substituição a escola. Eu aposto em tornarmos a escolas lugares de criatividade
e inovação.
6 – O humano na atualidade está sem humanismo?
Como está sua opinião em relação a ética na atualidade?
Existe uma crise do humanismo,
o que vem sendo apontado por diversos pensadores. Mas veja, se pegarmos a
história humana como um todo, a guerra, o patriarcalismo, a violência como modo
de resolver conflitos, a autocracia como governo sempre foram predominantes. O
humanismo, assim como a democracia, é uma utopia em permanente construção, não
existe um fim, mas uma luta eterna por uma visão de mundo humanista. Devemos
sempre valorizar nossa capacidade de criação e nosso livre-arbítrio. A série
Jornada nas Estrelas prima pelo seu humanismo e cosmismo, duas correntes
filosóficas que valorizam o papel do homem no universo. É o tipo de utopia que
devemos ter em mente.
7 – Qual será o futuro das HQs em sua opinião?
Na minha opinião, pelo menos
no Brasil, tendem a perder seu status de cultura de massa, como o cinema, e a
se restringir a um público menor e seleto, uma arte erudita, como o teatro. Já
um de seus gêneros principais, o de super-herói encontrou um caminho de
sobrevivência popular no audiovisual (cinema e séries). Pelo menos é assim no
Brasil, na Europa e nos EUA, mas não no Japão onde o mangá realmente se tornou
uma arte de massas. Como era os Comics nos EUA dos anos 30, 40, 50 do século
XX. Lá tem mangás para todos os grupos e faixa etárias. No Brasil, cada vez
mais é uma arte restrita a um grupo menor, exceção para a Turma da Mônica. Isso
não representará de todo um fim deste tipo de arte, apenas uma mudança já em
curso, para encadernados e edições cada vez mais luxuosas, para um público que
pode investir nestas coleções. Leitores, presumo, que sempre teremos, só que
restrito a um público menor, como é o caso do teatro e da literatura aqui no
Brasil; o que não dá mais é pensar em quadrinhos como uma expressão cultural
capaz de rivalizar com a música, séries de TV, cinema, games na mesma proporção
de público. Muita gente que vai em eventos relacionados a HQs é mobilizada mais
pelo cinema e séries de super-heróis do que pelas próprias HQs.

8 – A filosofia sendo
disseminada no meio da cultura pop perderia a sua evolução crítica e
metodológica? Como o senhor enxerga esse ponto?
Não penso assim, considero o contrário, que a
filosofia, praticada apenas na academia como ocorre atualmente no ocidente,
muitas vezes como comentário de textos filosóficos e história da filosofia tem
é afastado os filósofos do debate público, muitos filósofos buscam transformar
a filosofia em uma ciência. Mas ela é outro campo de conhecimento, um
conhecimento próprio, e deve ser assim. Ou vai ficar restrita a lógica e
filosofia analítica. Nos últimos tempos
ganhou força a ideia de uma filosofia aplicada: com cafés filosóficos,
orientação ética, aconselhamentos pessoais sobre temas diversos como morte ou a
busca de um objetivo existencial. Eu mesmo estou desenvolvendo um projeto
intitulado Academia de Filosofia Futura (já tem uma página no Facebook), nosso
objetivo é alinharmos justamente discussões sobre futurismo, filosofia e
inovação social e tecnológica. Atualmente venho me dedicando a questões de
ética, envolvendo transumanismo, bioética, possível descoberta de vida
extraterrestre ou contato com inteligências extraterrestres, nosso direito de
interferir em outros mundos; mas também temas como a morte e a busca pela
felicidade. Nosso objetivo é justamente trabalhar com Cafés Filosóficos,
orientação e aconselhamentos filosóficos
9 – O cinema está (ou já
está?) em uma face de engrandecimento dos heróis ou há um engrandecimento de
imortalidade do homo-sapiens, com produções como o da Marvel e a DC? Como
enxerga essa explosão de heroísmo no cinema?
Considero a explosão dos
heróis no cinema o encontro entre a possibilidade técnica e um desejo de utopia
que permeia a sociedade moderna. O herói é o salvador, que pode fazer o que nós
humanos comuns não podemos. Em uma sociedade massificada, identificamos no
herói nosso desejo de fazer algo mais, de nos destacarmos entre os outros. Mas
também é uma boa diversão, e em um mundo comandado pela lógica do trabalho
permanente, o escapismo do mundo dos heróis é bem-vindo. O homem sempre almejou
alcançar uma condição superior, na mitologia antiga temos os heróis e
semideuses, atualmente os super-heróis. São arquétipos de nossas fantasias do
“super-homem” que desejamos alcançar. Agora, entretanto, com as novas
biotecnologias, estamos entrando em uma época em que será possível alcançarmos
uma condição transumana. Isto será bom ou não? Devemos investir nesta direção?
São problemas éticos que devemos discutir desde agora, ou podemos ser
atropelados pelos fatos. Veja: nos anos trinta do século XX, revistas de ficção
científica publicavam histórias com guerras onde se utilizavam armas como
bombas atômicas e ataques aéreos. Era só ficção! Certo? Sim. Mas logo se tornou
uma realidade, e não estevávamos preparados para as questões éticas ali
colocadas. A ficção científica é uma espécie de sociologia do futuro, de onde
podemos ter um deslumbre de problemas sociais e éticos que enfrentaremos, e já
nos prepararmos para tal, através de uma reflexão profunda e discussões. Eu
particularmente penso que a utilização da biotecnologia para modificar nossos
corpos, o transumanismo (ou pantropia, adequando o corpo humano a ambientes
extraterrestres) associado a projetos de terraformação (adequar planetas como
Marte para condições semelhantes a terrestre) será indispensável a nossa sobrevivência
como espécie. Mas devemos nos assegurarmos, para não criarmos uma superespécie
humana biologicamente distinta, em que estes venham a viver mais e melhor que
os outros humanos “normais” e assim termos um regime de castas biológicas.
Seria um terror eugenista.
10 – E o cinema europeu, como
fica nessa era de super-produções?
Eu raramente, tanto em
quadrinhos, como séries ou cinema me preocupo com a origem do produto, busco
histórias bem contadas e artisticamente satisfatórias. Pode ser o cinema
brasileiro, do qual gosto muito, apesar de muitos diretores para consolidar o
público estejam cada vez mais seguindo a estética dos programas da Globo e dos
blockbusters americanos. Não acho isso ruim, desde que obras com estéticas
diversas também sejam produzidas. O cinema brasileiro hoje investe muito em
comédia, infantil e conteúdos históricos, porque aí encontram um nicho em que
podem concorrer com os americanos. Com o filme do “O Doutrinador” de Gustavo
Bonafé de 2018 e “Turma da Mônica – Laços” de Daniel Rezende a estrear agora em
2019 uma aproximação entre cinema nacional e quadrinhos nacionais, duas artes
tão desvalorizadas por aqui podem vir a desenvolver uma parceria interessante.
Já pensou em ver “O Astronauta” no cinema, um filme de ficção científica
brasileiro com orçamento digno? Vamos ver! Sobre cinema europeu, gosto de Sergei
Eisenstein (O Encouraçado Potemkin); Ingmar Bergman (Morangos Silvestres);
Federico Fellini (A Doce Vida); Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso); Krzysztof
Kieslowski (Trilogia das Cores); Claude Chabrol (Madame Bovary), entre outros.
Mas é lógico, assim como o cinema brasileiro, tem uma estética diferente da
norte-americana; por isso a importância de uma educação estética nas escolas.
Não tem problema em assistir um “Vingadores”, mas deve-se também ser capaz de
apreciar estéticas diversas. Também acho que as prefeituras deveriam investir
mais em clubes de cinema. Penso haver espaços para todos, mas uns sobrevivem
empresarialmente, e outros precisam de apoio cultural de governos e leis de
incentivo.
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| Edgar Smaniotto e o entrevistador Clayton Alexandre Zocarato |
11 – Quais seus diretores,
filmes e gêneros favoritos?
Gosto muito de ficção
científica e terror, e neste quesito aprecio tanto clássicos como 2001 – Uma
Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick como filmes trash. O terror sempre foi
um dos meus gêneros favoritos, eu lia muito as revistas Calafrio e os Mestres
do Terror, dos estúdios D-Arte criadas
pelo estúdio por Rodolfo Zalla e Eugênio Colonnese, e assistia uma série
chamada “Contos da Cripta”, derivado da HQ homônima que eu também gostava
muito. Quando eu era adolescente tinha também o Cine Trash na Bandeirantes, o
que era muito legal, e aí conheci a obra do que considero a mais genial diretor
brasileiro José Mojica Marins (Zé do Caixão). Ele não apenas criou um universo
ficcional como se tornou o principal personagem deste. Meu querido amigo Edgar
Franco vem fazendo algo similar no seu universo de quadrinhos “Aurora
Pós-humana”. Em ficção científica assisto quase tudo, e aí coloco também os
super-heróis; sou apreciador de um gênero quase extinto, o faroeste, no qual se
destaca o finado, mas sempre eterno Spaghetti western italiano. Assisto
praticamente todo o tipo de filme, se a história me interessar, de super-heróis
a dramas políticos e sociais; e por vezes, como sou casado, a comédias
românticas (risos).
12 – A cultura critica pode
estar passando por um processo de empobrecimento intelectual e moral?
No mundo temos uma emergência
de movimentos conservadores e de orientação mais autocráticos, o que coloca um
certo desafio, a mantermos uma cultura de inovadores democratas, onde me
enquadro. Penso que devemos sempre lutar pela valorização da cultura, da
ciência, da filosofia, da democracia, do respeito aos direitos humanos; e
fomentarmos uma cultura de inovação social, para além do discurso dominante,
que inovação, é apenas fabricar um celular mais “moderninho”. Precisamos de
novas formas de inovação social e política, que deem conta da complexidade de
nosso tempo. Para além, inclusive, dos discursos prontos de grupos e partidos
políticos. Apenas assim vamos garantir espaços para o enriquecimento
intelectual e a discussão ética, e não a imposição da moral de um grupo sobre
outros grupos.
13 – Escola: caminho ou
descaminho. Qual seria um tipo de educação, que provoca o conhecimento
filosófico mas ao mesmo tempo crie uma práxis de cidadania concisa?
No caso do conhecimento
filosófico penso ser indispensável o acesso aos textos clássicos. Assim como em
literatura precisamos ler Machado de Assis, e não apenas comentários a sua
obra, em filosofia alunos do ensino médio já deveriam ter contato com uma seletiva
de textos de Platão, Aristóteles, Descartes, Richard Rorty, entre tantos
outros. Já metodologicamente, os professores devem dar preferência a
metodologias ativas (principalmente Aprendizagem Baseada em Problemas) e o
diálogo. Por exemplo, se vamos discutir aborto, como um problema social e
político da atualidade, o interessante é os alunos lerem o texto de um filósofo
conservador, o de um liberal e de um marxista sobre o tema; e aí terem
elementos para discutir estás, diferentes visões filosóficas sobre um mesmo
problema. O professor/filósofo na melhor tradição socrática vai guiando os
alunos através de questionamentos, do elenkhós, o método da refutação. Que não
pretende chegar a uma resposta previamente posta pelo professor (como a
maiêutica platônica), mas sim valoriza o diálogo e a busca por resposta pelo
próprio aluno/aprendiz de filósofo.
14 – E a leitura? Como o
senhor analisa a produção editorial no Brasil, e a produção de livros com rigor
científico e lúdico?
A leitura é indispensável para
a formação, e no caso do Brasil isto é muito sério, pois temos um dos menores
índices de leitura do mundo. Agora o mais trágico é que professores também leem
muito pouco no Brasil, e são eles que devem incentivar a leitura. Assim
precisamos urgentemente de políticas públicas de incentivo à leitura. As
editoras brasileiras, por exemplo, deveriam lançar mais livros em formato de
bolso, e com papel jornal, a preços acessíveis para estudantes e a população
mais pobre. Considero a produção editorial brasileira atingiu um ótimo nível em
algumas áreas, como livros didáticos, científicos e técnicos; mas ainda deixa a
desejar em outras, como no investimento em ficção científica e autores
brasileiros de literatura em geral. A literatura infantil é uma área onde o
lúdico e a qualidade literária realmente surpreende, aqui, atingimos um nível
de produção realmente único.
15 – Edgar Smaniotto. Como
definiria essa pessoa?
Pai, marido, professor e um
pesquisador multidisciplinar e polímata.
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Entrevista dada ao site HQs com Café em 25 de janeiro de 2019
Link original: https://hqscomcafe.com.br/2019/01/25/hqs-entrevista-edgar-smaniotto/
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Entrevista realizada por
Clayton Alexandre Zocarato.